Eça de Queiros ou a Arte da Ironia

Eça de Queirós. O nosso velho amigo e grande amigo. Velho? Velhos são os trapos! Foi Eça que cultivou na cultura portuguesa a ironia. Mas por que razão havia ele de o fazer? Tal como um agricultor cultiva a sua terra para obter os bens necessários, também Eça teve uma necessidade de o fazer. Não para sobreviver, mas para se defender durante a sua juventude.
Nascido antes do tempo, foi obrigado a fugir de certa forma de modo a esconder os erros dos seus pais. Foi então para um colégio interno no Porto, onde ficara também a sua família agora com três filhos legítimos a viver. Era impossível que isto não afectasse a sensibilidade do escritor. Vendo-se neste ambiente, foi aqui que Eça foi obrigado a desenvolver a sua arma para enfrentar a ordem burguesa onde foi criado e para superar a falta de afecto que teve. A sua característica ironia. Foi graças a todos estes factores que Eça teve os seus primeiros contactos literários, começando por Garrett. Contudo, apenas quando vai para a Universidade de Coimbra começa a desenvolver a sua vocação literária.
Eça escreveu várias obras, tais como “O crime do Padre Amaro”, “O Mandarim” e “O Primo Basílio”. Mas, foi sem dúvida a grande obra de “Os Maias” que marcaram a sua vida como escritor. Uma verdadeira obra-prima de grande trabalho e dedicação. Nesta obra, o escritor faz uma crítica a sua sociedade através de uma família de elevado nível social. E como não podia deixar de ser, entra aqui mais uma vez a sua característica ironia. Eça não se limita a fazer uma simples crítica usando apenas a família Maia. Eça representa cada aspecto da sociedade com uma personagem. É incrível a sua capacidade de conseguir reproduzir um grande aspecto do seu tempo usando apenas algumas personagens. Temos o exemplo da imprensa, que é criticada através da personagem de Palma Cavalão, representando a corrupção existente nos jornais. As personagens utilizadas para este efeito são as personagens tipo, sendo estas quinze no total.
Tudo isto é visto através dos olhos de Carlos da Maia, a personagem principal e a única que acaba por não ser criticada de uma forma directa pelo autor. Contudo, acaba por ser pelas outras personagens. Temos como exemplo um excerto da obra onde isso é evidenciado:
“Desde a sua entrada na Universidade, renovara as tradições da antiga boémia: trazia os rasgões da batina cosidos a linha branca; embebedava-se com carrascão; à noite, na Ponte, com o braço erguido, atirava injúrias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em amores por meninas de quinze anos, filhas de empregados, com quem às vezes ia passar a soirée, levando-lhes cartuchinhos de doce. A sua fama de fidalgote rico tornava-o apetecido nas famílias. Carlos escarnecia estes idílios futricas; mas também ele terminou por se enredar num episódio romântico com a mulher de um empregado do Governo Civil, uma lisboetazinha, que o seduziu pela graça de um corpo de boneca e por uns lindos olhos verdes. A ela o que a fanatizara fora o luxo, o groom, a égua inglesa de Carlos. Trocaram-se cartas; e ele viveu semanas banhado na poesia áspera e tumultuosa do primeiro amor adúltero. Infelizmente a rapariga tinha o nome bárbaro de Hermengarda; e os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe já Eurico, o Presbítero, dirigiam para Celas missivas pelo correio com este nome odioso.”
Vemos que Carlos é criticado não por causa das suas acções, mas devido à inveja por parte da sociedade. Ele tinha sempre mais vantagens em tudo, apenas por pertencia à família Maia, o que atraia a atenção de outros olhares.
Podemos então ver que a ironia é de facto algo natural no nosso Eça. Não de uma forma simples. É sim, bem estruturada e clara. Um perfeito exemplo de literatura de alto nível. Afinal, a sua agricultura parece ter dado frutos, e do bons.